Introdução
Desde quando criei este blog, estive preparando o terreno aos moldes de São João Batista, para escrever sobre um outro tema espinhoso, mas que neste ano (2026) se faz absolutamente necessário no Brasil. Este post de hoje é o último material que julguei e qualifiquei necessário para construção deste próximo. Fique ligado.
Da mesma forma que tenho feito para cada um dos posts que faço, procuro viver e amadurecer primeiro na fé, agindo, experimentando, estudando, orando, aprendendo e procurando inspiração com o Espírito Santo, portanto foi muito necessário viver e exercitar o Dom da Caridade, na vida real, materializando-a através de atitudes concretas, escolhas diárias, renúncias e gestos de amor ao próximo. Lembro de aprender sobre isto desde novinho, mas nunca foi suficiente. Caridade é a virtude máxima que nos conecta com Deus e, portanto, não é tão difícil assim falar dela, na verdade é até muito fácil se desdobrar em argumentos sobre como esta virtude é linda e indispensável. Difícil mesmo é o Skin In The Game necessário para se fazer cumprir na prática e com ações reais algo que de fato, mude a condição de Salvação da alma de outras pessoas.
Nos ensinam com palavras uma coisa, mas com atitudes, outra. O péssimo costume, e covarde, de nos colocar na posição de terceirizar esta virtude para outras pessoas, instituições ou governos, nos torna hipócritas incapazes de entender realmente a mensagem de Cristo. Não é fácil, por isto não julgo e também confesso que demorei 39 anos para começar a entender alguma coisa sobre isto. O interessante que o diferencial para tudo já nos havia sido revelado há mais de 2000 anos: Coragem!
A Caridade é mais do que um gesto de bondade: É a expressão concreta do amor de Deus em nossas vidas. Em nossa tradição Cristã, ela não é opcional, mas um chamado essencial. Jesus nos ensina que amar ao próximo é inseparável do amor a Deus, e que esse amor se manifesta em obras de caridade.
“Este é o meu mandamento: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.”
(João 15,12)
Mandamento Divino e Caminho para a Salvação
Jesus nos ensinou que toda a Lei e os Profetas se resumem em dois mandamentos: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo:
“Ame o Senhor, seu Deus, com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente.
Este é o maior mandamento e o mais importante.
E o segundo mais importante é parecido com o primeiro: Ame os outros como você ama a você mesmo.
Toda a Lei de Moisés e os ensinamentos dos Profetas se baseiam nesses dois mandamentos.”
(Mateus 22,37-40)
São Paulo, em sintonia com esse ensinamento, afirma em sua carta aos Romanos que:
“(…) o amor não faz mal ao próximo; portanto, o cumprimento pleno da Lei é o amor”
(Rm 13,10)
Indicando que o verdadeiro amor não prejudica, não manipula, não fere e não ignora o outro, mas o reconhece como imagem de Deus e busca sempre o seu bem. Assim, a Caridade se torna a expressão concreta do mandamento de Cristo e a chave para viver a fé de modo autêntico. Sem atitudes legítimas de amor, a Lei se reduz a letra morta, incapaz de gerar vida, pois somente o amor dá sentido e plenitude à Lei divina.
Veja, por indução lógica, aprendemos que a Caridade não é apenas recomendada, mas ordenada por Cristo. Jesus indica que a prática da Caridade é também um critério do juízo final:
“Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes.”
(Mateus 25,35)
Pois a ausência da caridade é vista como rejeição ao próprio Cristo:
“Em verdade vos digo: todas as vezes que não o fizestes a um destes pequeninos, foi a mim que não o fizestes.”
(Mateus 25,45)
E quem rejeita o próprio Cristo, rejeita o próprio Deus e fere gravemente a principal Lei divina.
Entenda que ser caridoso não envolve apenas em dar bens materiais aos outros. Dificilmente um ato isolado de doação será reconhecido se não houver um ato genuíno de bondade, um dom espiritual que se treina com o exercício da empatia. Devemos entender genuinamente que não estamos comprando um terreno no céu com esta atitude, mas sim manifestando naquele ato a verdade de uma ação de justiça legítima.
Virtude Permanente
Toda virtude, tal como qualquer vicissitude, pode se tornar temporariamente permanente em nossas vidas. Permanente, porque quando praticamos algo com muita frequência, gastamos muita energia naquele hábito e nos dedicamos de corpo e alma nele, ele se torna uma característica pessoal da pessoa, muitas vezes perceptível ao mundo externo, evidente como um ponto preto em um quadro branco. Temporário pois se aplicado da mesma forma, tanta energia e dedicação quanto foi investida para adquirir aquele hábito, tornamo-nos plenamente capazes de mudar.
Esta realidade pode ser aplicada tanto para remover maus hábito de nossa vida e desenvolver bons hábitos no lugar, quanto para remover bons hábitos e inserir maus hábitos.
Quando São Paulo coloca a Caridade como virtude máxima, acima de todas as virtudes:
“Agora, portanto, permanecem a fé, a esperança e a caridade. Mas a maior delas é a caridade.”
(1 Coríntios 13,13)
Ele nos convida para exercitarmos tão continuamente esta virtude, para tornarmos esta característica tão natural, a ponto de ser percebida e admirada pelo pior dos ateus. A fé sem obras de Caridade, se torna um objeto de credo incompleto:
“Assim também a fé: se não tiver obras, está morta em si mesma.”
(Tiago 2,17)
Testemunho
Todos os dias, acordo por volta das 04:30, faço minhas orações e me preparo para ir à academia. Vou a pé na grande maioria das vezes. Na volta, eu costumo passar na feira para comprar frutas, legumes, verduras e ovos aqui para casa. Um belo dia, passei a perceber na rua os diversos catadores de lixo que havia, eram muitos, quase todos moradores de rua. Eles buscam por latinhas de refrigerante, cerveja, etc., para vender às empresas de reciclagem e com isto, comprar sua refeição do dia. É um estilo de vida muito cruel onde na grande maioria das vezes, estas pessoas estão lutando pela sobrevivência.
Outro dia, quando eu levava 3 pentes de ovos para casa, pensei comigo e com Deus: Se eu encontrar no caminho alguma pessoa na condição de virar lixo, vou dar uma caixa de ovos a ela. Dito e feito, apareceram 3 pessoas, uma após a outra… não mudei minha rota, nada, apenas seguir meu caminho e nele apareceram 3 pessoas que receberam estes ovos como a prometida ajuda.
Passei a comprar um algo a mais na feira, sempre pensando em doar para alguém no caminho, às vezes era caixa de ovos, outras vezes eram 1 maçã, 1 abacaxi descascado, 1 pacote de biscoito, etc. Não houve uma vez que eu não sentisse que o que eu estava fazendo, fosse o correto a ser feito, o justo. Meu pensamento sempre foi: Eu tenho tanto, posso interromper meu trabalho a hora que quiser e comer o que eu quiser, quando quiser. Essas pessoas lutam o dia todo, revirando lixo dos outros, para ter uma única refeição. A verdade é que não sabemos o passado delas e isto na verdade pouco importa, o que importa é ajudarmos quem precisa.
Outra vez saindo de casa com minha esposa, um senhorzinho nos abordou pedindo 0,50 centavos. Como estávamos com certa urgência, o dispensei. Eu realmente não tinha os 0,50, muito difícil eu andar com dinheiro hoje em dia. Mas alguns passos adiante, parei, pedi minha esposa para esperar e me voltei novamente para o senhorzinho, convidando-o para ir ao Supermercado BH, que ficava em nosso caminho. Ele aceitou. Esse senhorzinho se chama Itamar e fomos conversando até lá. Pessoa alguma que desconhece esta realidade, jamais saberá como estas pessoas são carentes, elas passam a maior parte do tempo sozinhas e com Deus. Neste dia fizemos uma boa compra para ele, da forma que ele poderia carregar, parecia uma criança enquanto andávamos pelo mercado, jamais pedindo nada, inclusive cada vez que eu aumentava a quantidade de um item, ele ficava com vergonha por tanto. Mal ele sabia que aquilo era o mínimo que eu poderia fazer e que meu coração ao mesmo tempo que se enchia de alegria por poder ajudar um pouquinho o Itamar, doía muito por não poder fazer mais do que prover alguns mantimentos para alguns dias.
Pois não se encerrou com Itamar, se estendeu a muitos outros, seguindo a filosofia que adotei desde o princípio: Se em minhas orações eu me disponho para Deus e em meu caminho estas pessoas aparecem, não serei eu a negar que Deus atenda as orações de seus pequeninos. Portanto insisto que alinhe suas orações a tudo que se dispuser a fazer, pois a providência Divina quer e precisa de sua disposição e coragem.
Testemunho – Ronald
Ronald (ocultei seu verdadeiro nome) foi um destes moradores de rua. Quando eu ainda não o conhecia, em 24 de Dezembro de 2024, o avisei debaixo de uma marquise dormindo enquanto ia para a academia. Naquele mesmo momento pensei em comprar diversos lanches para ele e desejar-lhe um Feliz Natal na volta. Lembro que comprei uma quantidade generosa de diversos salgados, doces e bebidas para ele, mas que na volta ele não estava mais lá. Deixei as sacolas encostadas por lá e conversando com Jesus, disse: Meu Senhor, agora é com você. Não tenho intenção alguma de levar este lanche comigo pois eu comprei para este senhor que estava dormindo em situação de rua, faça chegar nele.
Ficamos eu e minha esposa pensando se ele havia encontrado e se beneficiado dos alimentos, afinal até mesmo cachorro de rua poderia ter comido. Lembrei dele em minhas orações e realmente alimentei minha fé de que poderia tê-lo ajudado. Dias depois, já em Janeiro de 2026, passamos eu e minha esposa por lá novamente e lá estava ele. Resolvi não o abordar pois estava com minha esposa, mas se no dia seguinte que eu iria sozinho ele estivesse por lá, eu poderia me apresentar. Pois bem, no dia seguinte ele estava lá. Interessante que enquanto fui me aproximando do local, um receio misturado com medo começou a tomar conta de mim, mas a coragem foi maior, talvez ter ajudado tanto outras pessoas tivesse me dado algum nível de maturidade para situações assim: “Bom dia!”. foi o que disse. Ele imediatamente se descobriu e olhou pra mim, quando o convidei para tomar um café. Ele aceitou, apressadamente se levantou, começou a juntar suas coisas em seu carrinho de supermercado, ferramenta que utilizava para ir juntando as latinhas para reciclagem. O que mais me chamou a atenção ali foi que ao se levantar, estava com ele debaixo do amontoado de retalhos que fazia de travesseiro, uma Bíblia.
No caminho, ele me contou o motivo de estar na rua, contou sobre seu vício com a cocaína (o pó do capeta) e como era sua ligação com Deus. Neste dia, senti que poderia convidá-lo para os encontros da Pastoral da Sobriedade, da qual faço parte aqui na Paróquia. Para minha surpresa ele recebeu o convite com muito entusiasmo, motivo pelo qual eu desenhei na capa da Bíblia dele um mapinha para a localização exata, pois não sabia que o encontraria outra vez até lá. No dia seguinte, o encontrei novamente, ofereci mais um café e soube que ele já tinha ido até o local para conhecer e saber onde era. Ao me despedir dele, fiz um comunicado à Pastoral sobre sua possível visita que seria no dia seguinte e convoquei as pessoas para levarem doações diversas.
Para surpresa de todos, Ronald estava presente, chegou adiantado, uma clara expressão de vontade para buscar sair daquela situação. Uns levaram roupa, eu levei para ele uma mochila, uma jaqueta de couro que não servia mais em mim e vários pacotes de biscoito para dar uma sobrevida. Não lembro exatamente o que aconteceu depois deste dia, mas só fui encontrá-lo novamente na semana seguinte, no próximo encontro, onde ele nos contou que naquele mesmo dia havia sido roubado por delinquentes. Mas mantivemos o foco. Ronald agora queria um teto para morar – disposto a bancar com o que ganhava com a reciclagem.
Foi questão de mais 2 semanas, diversos contratempos onde ele foi atropelado, perdeu mais das doações que havia recebido, tentativas de acolhimento por algumas ordens cristãs e finalmente a tentação máxima de voltar com a droga. Ronald me contou depois que foi aquele lanche de Natal que o fez continuar vivo, pois já havia pensado em interromper com a própria vida. Naquele dia que não o encontrei, ele estava orando na igreja. Imagino qual foi a reação ou o que ele realmente pensou quando voltou e encontrou todo aquele presente. Ronald desde este dia ficou mais sensível a Deus e a tentação máxima de gastar suas economias com a droga foram vencidos por esta relação de intimidade e determinação que ele desenvolveu, pois antes que ele fizesse qualquer besteira, apareceu-lhe uma oportunidade de alugar um lugar, um teto seguro para si.
E tudo mudou!
Ronald não ficou 2 dias neste barracãozinho e já arrumou um emprego fixo justamente onde ele vendia suas reciclagens. Hoje ele trabalha fixo para esta empresa de reciclagem, possui um teto, dignidade e segurança. Uma ovelha perdida, mas que foi resgatada pelo Bom Pastor, com todos os meios disponíveis e indisponíveis, Ronald agora tem todas as condições para permanecer em Cristo.
Deixo este testemunho aqui para ilustrar como se colocar à serviço e disposição de Nosso Senhor, o milagre se opera por pura providência. Fui o primeiro a ajudá-lo, mas muitas outras pessoas sentiram nele a garra e a fé para mudar de vida, portanto tantos outros ajudaram e ainda vamos continuar ajudando, pois Ronald merece dignidade e justiça vindas da verdadeira Caridade.
Um Convite para Reflexão
A caridade não é apenas uma virtude entre outras, mas o próprio coração da vida cristã. Jesus nos mostrou que amar a Deus e ao próximo é o resumo de toda a Lei (cf. Mt 22,37-40), e São Paulo nos recorda que
“(…) o amor não faz mal ao próximo; portanto, o cumprimento pleno da Lei é o amor”
(Rm 13,10)
A fé sem obras de caridade se torna estéril, incapaz de gerar vida (cf. Tg 2,17).
Diante disso, somos convidados a olhar para nossa própria existência e perguntar: Em que momentos temos deixado de amar concretamente? Quantas vezes terceiramos a caridade para instituições ou governos, esquecendo que o chamado é pessoal e diário?
O testemunho de vida mostra que pequenos gestos — uma palavra de consolo, um alimento partilhado, uma escuta atenta — podem transformar destinos inteiros. Como nos lembra Jesus:
“Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes”
(Mt 25,35)
Convite ao leitor:
- Reflita sobre como você pode tornar a caridade uma prática constante, não apenas um ato isolado.
- Pergunte-se: quem são os “pequeninos” que Deus tem colocado em seu caminho?
- Decida hoje por uma atitude concreta de amor, lembrando que:
“(…) filhinhos, não amemos de palavra nem de boca, mas sim de ação e de verdade”
(1 Jo 3,18)
Assim, a caridade deixa de ser apenas um ideal e se torna um caminho real de conversão diária, capaz de nos conduzir à verdadeira salvação em Cristo.
